Desde há muito, existem evidências que mostram que o peso corporal tende a retornar rapidamente após a interrupção de medicamentos para obesidade. No entanto, isso não representa fracasso terapêutico, mas a confirmação do que a ciência já conhece há décadas, ou seja, o peso corporal é regulado por mecanismos neuroendócrinos centrais, especialmente no cérebro. A descoberta dos agonistas do receptor de GLP-1 e de suas combinações farmacológicas marca uma transformação estrutural no tratamento da obesidade, que deixa de ser abordada como um problema meramente comportamental para assumir definitivamente o estatuto de doença metabólica crônica.
Esses agonistas, como semaglutida e tirzepatida, atuam reduzindo o apetite e aumentando a saciedade por meio de circuitos cerebrais relacionados à fome e à recompensa. Durante seu uso, ajudam a suprimir sinais biológicos para manter o peso corporal. Ao serem suspensos, esses sinais reaparecem. Essas substâncias tornaram-se muito populares por promoverem uma perda de peso significativa em pouco tempo e em muitos casos é possível perder de 15% a 20% do peso corporal.
Um grande estudo britânico recém-publicado na prestigiosa revista “British Medical Journal” (BMJ) mostrou um ponto importante que muitas vezes passa despercebido: ao interromper o uso desses agonistas, o peso tende a voltar rapidamente. Segundo a pesquisa, o reganho de peso é cerca de quatro vezes mais rápido do que o observado em pessoas que emagrecem apenas com dieta e atividade física. Os pesquisadores analisaram 37 estudos e observaram que, após suspender os remédios, os participantes recuperaram, em média, cerca de 10 quilos em um ano. A projeção indica que muitos pacientes retornariam ao peso inicial em aproximadamente 18 meses. Além disso, benefícios obtidos com a perda de peso como melhora da pressão arterial e do colesterol tendem a desaparecer com o tempo.
Uma explicação é que os medicamentos controlam o apetite enquanto estão sendo usados, mas não mudam de forma definitiva os mecanismos do corpo que regulam o peso. Já pessoas que emagrecem com mudanças no estilo de vida costumam aprender hábitos mais saudáveis, o que ajuda a manter parte dos resultados, mesmo que haja algum reganho. Especialistas reforçam que a obesidade é uma doença crônica, semelhante à hipertensão ou ao diabetes. Por isso, os medicamentos precisam ser usados por longos períodos ou combinados com outras estratégias, como reeducação alimentar, atividade física e acompanhamento profissional. O estudo não diminui a importância desses remédios, mas deixa claro que eles não são uma cura milagrosa.
O tratamento eficaz da obesidade depende, então, de abordagens contínuas e combinadas, que vão além do uso isolado de medicamentos. Hormônios como leptina, grelina, insulina e peptídeos intestinais, além de neurotransmissores dopaminérgicos, participam dessa resposta adaptativa. São processos automáticos e independem da vontade da pessoa. Por isso essas substâncias não devem ser vistas como soluções mágicas ou temporárias, mas como ferramentas dentro de um cuidado prolongado.
Como claramente destacam os autores do artigo do BMJ, os tratamentos farmacológicos para obesidade constituem o início de uma trajetória de cuidado, e não seu desfecho. Reconhecer a base biológica da obesidade não diminui a importância do estilo de vida. O futuro do tratamento passa por abordagens combinadas e sustentáveis, que integrem farmacoterapia, mudanças comportamentais e políticas de saúde coerentes com a natureza crônica da doença. Por fim, pode-se dizer que a obesidade é uma doença crônica e recidivante, sinalizando que esses tratamentos precisam ser usados por longo tempo, como ocorre com medicamentos para hipertensão e para diabetes. O custo elevado e os efeitos adversos tornam a adesão prolongada um desafio real, sobretudo em sistemas públicos.





